E agora Amélia, Maria, Joana...?

E agora Amélia, Maria, Joana...?
 
 

 Ela tinha muito orgulho em servir aos seus. Levantava meia hora antes de todos para fazer o café, preparar os lanches personalizados ao gosto de cada um de seus filhos e esposo. Colocava a mesa com uma delicadeza nipônica, cobrava-se a perfeição aos mínimos detalhes combinando o jogo de chá com o de café, os guardanapos eram coloridos na cor predominante dos jogos. Patê de frango para o primogênito, os frios nunca faltavam. Margarina? Que nada! Era a manteiga fresquinha encomendada à vizinha que trazia da chácara as segundas. Biscoitos, bolo, pão de forma, pãzinho francês sem miolo pois a filha mais velha vivia de dieta. Batia no peito orgulhosa, dizia que uma mulher que se preza, uma mãe  amorosa tinha de doar-se. Vivia em função da família. Desde que casou fez sua opção, deixou para traz seu ateliê, seu trabalho, seus clientes para viver para a família. Pensava com a certeza lúcida de uma leoa desvairada sentindo a presença do perigo rondando suas crias:


- Ninguém poderia cuidar, como ela,  de sua família, seus filhos e amado esposo. Eles estando felizes eu também estarei, repetia para si, todas as manhãs ao levantar, ao ficar na porta com as mochilas na mão dando a cada um dos filhos quando saiam. 

O esposo tinha de sair impecável e para tal ela nunca descuidava, verificando se o paletó não tinha um fiozinho que fosse agarrado a ele. Entregava a pasta ao esposo e esticava o pescoço posicionando a lateral do  rosto para receber o premio por tanta dedicação. Saiam correndo apressados e esqueciam de beijar a dedicada mãe. Mas ela estava feliz; não faz mal estão com pressa, tem coisas urgentes a fazer. E assim, vivia dia a dia, ao saírem ia arrumar a casa, a roupa, preparar o almoço para quando as crianças chegassem da escola. Achava graça das reclamações ao mesmo tempo em que se culpava quando escutava:

- Mãe este arroz esta péssimo. Já não disse que não gosto da carne desta forma! Quantas vezes vou ter de repetir? Onde esta o tênis que eu mandei você lavar pois precisava dele para hoje?

Corria de lá para cá, desdobrando-se em muitas para deixar seus amados satisfeitos e não entendia porque nunca conseguia, apesar do esforço. Desde pequenos, fazia a cama, arrumava os chinelos, a toalha, a roupa limpa, mas nunca era o suficiente.

O amado esposo sempre em reuniões de trabalho, festas de trabalho. No início ele a levava até que começou a dar desculpas, dizendo que ela trabalhava muito em casa e ele não a queria fazendo os sacrifícios; porém a verdade é que ele percebia que ela ficava deslocada nas reuniões. Não tinha assunto! E ele ficou envergonhado com as roupas fora de moda que usava, com o cabelo não tão tratado como das outras esposas.

Foram crescendo e já não agüentavam a sombra da mãe o tempo todo atrás. Do maternal para a pré-escola, dali para o estudo fundamental, colégio, Cursinho para o Vestibular e a Faculdade. Ela perdeu horas, noites de sono a espera dos filhos voltarem a salvo para casa. Mas tinha de ficar escondida atrás da cortina da sala; não podia telefonar para saber se estavam bem porque provocaria a ira deles. O amado esposo há muito não tinha mais tempo para os dois. Os filhos, namoraram, casaram e ela se viu sem chão.

E agora Amélia?

Amélia? Mas seu nome era Cristina! Bem poderia ser Joana, Ana, Lourdes, Lara.


Moral da História: Amar não é padecer no paraíso! Nunca se anule e desista de sua vida, vivendo a dos outros.Você ainda tem escolhas - caia em depressão profunda ou dê a volta por cima. Faça o que deixou em suspenso anos atrás.